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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008

17.03.08

Parada para ônibus

De manhãzinha, ao esperar o ônibus passar pelo ponto, é curioso notar o número de pessoas, com jeitos, posses e, principalmente, universos diferentes.
Esses universos, que se espremem e se amarrotam, podem gerar estranheza ou cumplicidade, são percebidos através de cada objeto encontrado, cada detalhe, que ás vezes nem é notado fora de contexto.
Eu carrego minha mochila, meu relógio, minhas apostilas que gritam aos outros passageiros que sou uma estudante atrasada, assim que entro pela porta. O motorista me olha e seus óculos de sol refletem uma tentativa de estilo e, ao mesmo tempo, proteção.
Paro na frente por alguns instantes, as poltronas suplicam um descanso, é gente que não acaba mais, por entre barras de ferro e alças todos os agarram com força e segurança, afinal, é para isso que servem mesmo.
Passo o cartão, metido pela tecnologia que julga fornecer, e a catraca gira. Essa vive tonta, vira o tempo todo, ao menos que aquele espertinho, armado com aquele sorrisinho, passe por baixo, deixando a coitada para trás. O cobrador bate uma moedinha, tlin, e a porta se fecha.
Fico em pé e os objetos começam a me chamar para uma conversa minuciosa. Quinhentos chaveiros mostram a paixão por coleções da menina, o boné para o lado e a calça larga discutem as manobras do skatista. As correntes de prata torcem os elos para as caveiras pesadas que vibram aos solos do metaleiro quando em ensaio.
Sento-me, mas mantenho minha perspectiva. Passa arrastada a sandália de tiras de couro, certamente ela é o descanso de um nordestino trabalhador. O Nike Shox vem falando sobre as novidades do Paraguai.
Sobe uma senhora e com ela seus tamancos falantes, que não paravam de questionar as unhas com esmaltes descascados de quem trabalha pesado na faxina. E saltam aos olhos a bengala do velhinho, cansada por suportar o peso do pobre homem há tanto tempo.
A tatuagem de um Buda no braço do moço da frente acaba de informar que ele se mantém religioso. O crucifixo na corrente de outro, também reforça a idéia de fé. E a indumentária hindu se decepciona com o tênis de marca que faz seu conjunto no corpo de um rapaz.
Há aqueles que tentam se fechar em seu próprio mundo e os aparelhos de mp3 são seus grandes colaboradores. O olhar fica no vazio, da música se ouve apenas um ruído caótico e a pessoa flutua naquele ambiente. Esses aparelhos dizem apenas que querem distância e se calam depois.
Esse mundo de entrelinhas e de observação quebra as fronteiras da fala, da simpatia e até da antipatia necessárias para uma comunicação oral.
A cordinha é puxada e o sinal de fim da conversa soa. O ponto de destino chega, eu me despeço em silêncio, deixando todos aqueles elementos e entrando em um novo contexto. Pronta para um novo papo, que logo se estabelecerá.
 

  • criado por  aninhaps89 criado por aninhaps89
  • Postado em 21:52:20